Prison Break: Sequel – O regresso daquele que nunca partiu





[COM SPOILERS] O regresso de uma série que marcou uma era.



Na altura em que apareceu, rapidamente se tornou numa espécie de ícone, com uma legião de seguidores imensa, consensual em termos qualitativos. Com uma primeira temporada absolutamente brilhante em termos de emotividade, ação e suspense, “Prison Break” conseguiu cimentar o seu espaço sendo considerada, ainda hoje, para muitos, uma das melhores séries já visionadas. A segunda temporada manteve um nível elevado, tendo a terceira e quarta baixado um pouco a qualidade, mas não prejudicando a imagem de série de culto (para alguns) e das mais conhecidas no panorama televisivo dos últimos tempos.

Como referi, a primeira temporada desta série foi, ainda hoje, a que vi com mais entusiasmo e em menos tempo desde que vejo séries. Lembro-me, na altura em que me emprestaram o DVD com os 22 episódios da primeira temporada, estava com muito tempo livre (infelizmente). Ora, devorei isto em cerca de dois dias e meio, sempre a andar, era parar para comer e dormir e pouco mais! Prendeu-me de uma forma única, quase como nunca outra série o fez. Atenção, falo só da primeira temporada, não da série completa. O grande trunfo de “Prison Break”, além do seu protagonista, passou pelo plano e desenrolar do mesmo dentro da prisão. A segunda temporada ainda conseguiu manter-me agarrado, devido à fuga, mas a terceira e quarta, com excesso de linhas narrativas, muitas que me pareciam surgir ao sabor do vento, já não provocaram o efeito que as primeiras conseguiram. No entanto, como referi em cima, não prejudicou muito a imagem que a série conseguiu montar.

Ora, quando ouvi falar deste regresso, fique apreensivo. Não sou grande apologista destes regressos, penso que as séries têm o seu tempo e “Prison Break” cumpriu o objetivo, saindo com boa imagem. Muitas vezes (veja-se o caso do novo “Macgyver” ou “Heroes Reborn”), o regresso torna-se um verdadeiro tiro no pé, estragando, em muito, a imagem que o original deixou. Mas pronto, Prison Break é Prison Break e não iria deixar de acompanhar um dos anti heróis mais inteligentes e admirados deste mundo, Michael Scofield.

Esta sequela acabou por ser positiva, se for pesar os prós e contras, penso que, apesar de não ter sido uma temporada fantástica, os pontos positivos sobrepuseram-se aos negativos. Vantagem, desde logo, o elenco. O facto de ter mantido grande parte da estrutura original jogou a favor da série. Personagens que já conhecíamos, que não necessitaram de grande introduções, de aprofundar a sua validade para a narrativa. Não houve mudança radical, tirando a introdução de um ou dois regulares necessários para a nova história. Michael, Lincoln, Sara, C-Note, T-Bag, Sucre, todos se mantiveram e levaram-nos a uma ligação natural com as temporadas anteriores. Depois, as ligações entre estas personagens, fortalecidas com um passado cheio de adrenalina mas que não adormeceram mesmo após os 7 anos de suposta morte de Michael. Lincoln a fazer tudo pelo irmão, o amor entre Michael e Sara, a cumplicidade que nunca deixou de existir com Sucre ou C-Note e um T-Bag ligeiramente diferente do original, com um propósito que o tornou ligeiramente mais humano, graças ao plano de Michael. Igualmente, o não terem esquecido o facto de Michael ter estado, supostamente, morto durante 7 anos. Apesar de ter sido uma explicação um pouco rebuscada e à pressa, conseguiu ter sentido e com ligação ao passado, foi importante a produção ter dado atenção a isso.

Foi um temporada que tentou não fugir muito à imagem de “Prison Break”. Fuga de uma prisão no Iémen, provavelmente a zona mais instável do mundo, uma das prisões mais perigosas do planeta, composta por meninos do pior que há. Até lá chegarmos (à prisão), começámos por perceber que Michael estaria, afinal, vivo e que engendrou um plano para demonstrá-lo e libertar-se das garras do vilão Poseidon, responsável por garantir que todos pensassem que Michael estaria mesmo morto e que este não voltaria a contactar a família. A coisa muda de figura quando Poseidon incrimina Michael (neste caso Kaniel Outis) por um crime que não cometeu. Até à data, Scofield foi responsável por tirar da prisão figuras importantes para os EUA, no entanto, no Iémen a coisa mudou de figura.

As cenas no Iémen deram um “cheirinho” do passado, mas fugiram um pouco ao que estávamos habituados. Em primeiro lugar, vimos um Michael mais vulnerável, numa prisão que foge ao estigma do costume, a não conseguir concretizar sempre os seus planos bem pensados. Foram mais momentos de “vamos ver o que isto dá” e correram mal diversas vezes, como naquela primeira tentativa de fuga, em que foram apanhados no telhado da prisão de Ogygia. Já fora da prisão, várias vezes a coisa correu mal, como na perca do avião em que C-Note estava e na parte em que Michael fica sozinho no deserto e quase morre. O cenário era diferente, o raio de ação mais perigoso, daí que foi natural ver estas dificuldades, até porque, se fosse na realidade, dificilmente alguém conseguiria sair do Iémen vivo.

De regresso a casa, o plano de Michael começou a fazer mais sentido, as peças que tinha colocadas estrategicamente começaram a dar frutos. Aí começou, igualmente, um jogo de quem é mais inteligente, entre Michael e Poseidon, ou melhor Jacob Ness, o marido de Sara que bem a enganou. Inicialmente ainda tentaram enganar-nos sobre a hipótese de ser ele o vilão, mas não conseguiram, tornou-se demasiado óbvio desde que T-Bag o apanhou a falar com a dupla de assassinos. Uma vez ia ganhando um, outras vezes ia ganhando outro, mas nunca restaram grandes dúvidas de que, no final, Michael sairia vencedor e com um final feliz em família.

Pessoalmente achei o episódio final fraco. Apesar de ter gostado da temporada, de emoção que sempre caraterizou a série, dos planos inteligentes do protagonista, das novas personagens (sobretudo Whip), dos cenários no Iémen, o final deixou-me um pouco desalentado. Talvez por terem feito apenas 9 episódios, o final tenha sido demasiado acelerado, não dando tempo para apreciar verdadeiramente as coisas. Para já, achei uma perda de tempo introduzirem o filho de Abruzzi para perseguir Lincoln, não interessou nada para a história e só serviu para desviar as atenções do que realmente interessava. Depois, a cena no armazém em que Whip se sacrifica, faria sentido se fosse tudo encenação para enganar Jacob, mas afinal foi mesmo uma estupidez por parte do filho de T-Bag. Por falar nestes dois, o facto de serem pai e filho e de Michael se ter “apercebido” da ligação e ter usado isso agora, pareceu demasiado conveniente. Basicamente, esperava um endeusamento da inteligência de Michael e pareceu-me mais uma manta de retalhos que foi sendo cozida sem a linha e agulha apropriadas. Mas pronto, final feliz atingido a 100% com aquela cena à comédia romântica, com a família sentada na relva a contemplar-se.

Resumindo, um regresso assente na nostalgia, com muitos dos trunfos do passado mas erros de percurso bem visíveis. Espero que fiquem mesmo por aqui agora. Não vale a pena estar a regressar novamente no futuro e qualquer dia já nem nos lembrarmos daquelas duas temporadas iniciais que foram qualquer coisa de fantástico. Talvez pudessem ter feito uma temporada ligeiramente maior, dando outro destaque a certas personagens, não fazendo de Sucre, por exemplo, apenas uma personagem que apareceu pela tal nostalgia do passado, pois o seu impacto foi quase nulo (o mesmo com C-Note, apesar deste ter sido importante no início). Houve um vilão à altura, mas as razões para acabar com Michael acabaram por ser demasiado forçadas, o amor por Sara, o querer ser mais inteligente, foi tudo lançado repentinamente, não nos dando muito tempo para sentir realmente aquele sentimento de ameaça. No entanto, o jogo final não deixou de ser um dos destaques da temporada, com as tatuagens de Michael a finalmente fazerem sentido, conseguindo reproduzir a cara de Jacob para entrar no seu espaço secreto. O plano de reconstruir o cenário que incriminou o protagonista também foi bastante bem pensado, apesar de, no final, ter sido desmascarado pelo FBI, sem problemas de maior. Tudo está bem quando acaba bem. Um regresso que jogou com as expetativas do fãs, que creio terem ficado satisfeitos por ver as suas personagens favoritas de novo, mas certamente não se deslumbraram. Diria que, face à qualidade do que foi apresentado e ao facto das audiências não terem sido super (penso eu), o melhor será ficar mesmo por aqui. Obrigado “Prison Break”, até sempre.

Nota: Texto escrito para o blog TVDependente

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